A complexidade da análise abre espaço para
diferentes preços, mas as disparidades verificadas são exageradas e levantam
suspeitas.
As quatro maiores auditorias do país (e do mundo) –
PricewaterhouseCoopers, Ernst Young Terco, KPMG e Deloitte – cobram preços
discrepantes para analisar os balanços dos bancos brasileiros. Uma análise das
informações das instituições financeiras revela que os valores podem variar de
95 mil reais até 38 milhões de reais.
A informação reforça o clima de desconfiança com
relação ao trabalho dessas companhias, cuja função é realizar minuciosa
verificação dos números apresentados por seus clientes. Para isso, costumam
dedicar equipes de dezenas de profissionais que permanecem semanas (ou meses)
em uma empresa, apenas analisando seus dados. O debate ganhou fôlego com a
descoberta de que as inconsistências contábeis dos balanços do banco
Panamericano haviam sido auditados e aprovados pela Deloitte.
É exigido que as companhias abertas passem por
controles contábeis, financeiros e tenham suas demonstrações revistas por uma
empresa especializada, como as quatro citadas acima. É aceitável que possa
haver alguma diferença de preço caso uma empresa apresente um perfil de risco
maior – fato que impacta diretamente o trabalho das auditorias. “Cada
instituição financeira tem um perfil de risco diferente, o que exige que
determinados aspectos de seus números recebam maior ênfase de análise”, afirma
Fábio Coimbra, professor de Governança Corporativa e Gestão de Risco da FIA.
Contudo, nada justifica um intervalo tão grande.
No caso dos 95 mil reais cobrados por um ano de
auditoria contábil, a prestadora do serviço é a KPMG e o cliente, o Banco do
Brasil – a maior instituição financeira do país, com 755 bilhões de reais em
ativos. Em 2009, a mesma empresa havia cobrado 6,4 milhões de reais do BB por
seus serviços. Em uma licitação promovida neste ano, cujo leilão ocorreu no
início de novembro, bateu-se o martelo para o menor preço. De acordo com
informações de suas assessorias de imprensa, o BB não soube o nome da auditoria
até o final do pregão. O valor inicial lançado pela KPMG era de 19,6 milhões de
reais. Outras duas empresas disputavam o cliente: a PricewaterhouseCoopers, com
o lance mínimo de 12,5 milhões de reais e a Ernst Young, disposta a cobrar 6
milhões de reais. A KPMG, então, baixou sua oferta até impressionantes 95 mil
reais, que lhe garantiu a vitória. O contrato ainda não foi fechado, mas,
segundo o Banco do Brasil, sua quebra seria irregular.
Na avaliação de Juarez Domingues Carneiro,
presidente do Conselho Federal de Contabilidade, a operação será investigada.
“Queremos saber como o preço chegou nesse patamar. Não tem cabimento, em um
trabalho especializado, haver uma licitação baseada em pregão”, afirma.
Instituições menores que o Banco do Brasil, como o Itaú-Unibanco e o Bradesco, pagaram
em 2009 mais de 30 milhões de reais nos trabalhos executados por auditores
independentes. Segundo uma fonte ouvida pelo site de VEJA, o Itaú-Unibanco é
uma das instituições que possui maior exposição a riscos de mercado no país,
devido a substanciais posições em derivativos. Por esse perfil arriscado, pagou
38 milhões de reais à auditoria PricewaterhouseCoopers em 2009.
O Santander, que paga cerca de 6,5 milhões de reais
para auditores independentes avaliarem seus números, afirmou ao site de VEJA, por
meio de um comunicado, que “o valor dos trabalhos realizados pelas empresas de
auditoria (...) variam de ano a ano em função da abrangência dos serviços
prestados e que, por política interna, passam por aprovação pelo Comitê de
Auditoria do banco”.
A disparidade de valores, chegando ao cúmulo de 95
mil reais, desperta a atenção para inúmeros questionamentos. Entre eles, a
qualificação dos profissionais independentes que realizam os controles e o
comprometimento das auditorias e de seus clientes com o detalhamento dos
números avaliados. “A consequência mais óbvia é a perda de qualidade das
auditorias, já que o trabalho tem sido feito por estagiários e os testes do
balancete são ignorados por falta de equipe e tempo”, afirma uma fonte ligada a
uma das auditorias citadas na reportagem. Enquanto faltar transparência e
explicações em relação aos auditores independentes, sobrarão casos como o do
Panamericano.
Os contratos de auditorias dos
bancos
Instituição
|
Valor
pago*
|
Auditoria
|
Itaú-Unibanco
|
38,5 milhões
|
PWC
|
Bradesco
|
31 milhões
|
PWC
|
Santander
|
6,5 milhões
|
Deloitte
|
Banco do Brasil
|
6,4 milhões
|
KPMG
|
Cruzeiro do Sul
|
1,2 milhão
|
KPMG
|
Bic Banco
|
1,1 milhão
|
KPMG
|
Panamericano
|
1 milhão
|
Deloitte
|
Banco ABC
|
767 mil
|
Ernst
& Young
|
Paraná Banco
|
400 mil
|
KPMG
|
Ana Clara Costa
*dados
relativos a 2009 | Segundo as empresas, variação está relacionada à quantidade
de serviços prestados
Fonte: Empresas
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